Vila de Cano
Diário de Uma Seca de Terra
15 de Janeiro de 2010

Pratos que dignificam a boa cozinha alentejana nas mãos de um alentejano da Vidigueira.

Quem havia de suspeitar que a velha aldeia da Porcalhota do século XIX - onde o famoso Pedro dos Coelhos era a atracção gastronómica, até para personagens de "Os Maias" - iria dar nisto? Primeiro, a mudança de nome para Amadora, em 1907, agregando Falagueira e Alto da Venteira. Em 1916 criação da freguesia da Amadora, elevada à categoria de vila em 1937. Invadida depois por numeroso exército de construtores civis, sofre um crescimento explosivo a partir das décadas de 1960 e 1970, sendo considerada em 1975 a freguesia mais populosa da Europa. Finalmente, em 1979, instituído o município da Amadora, com 11 freguesias e algum território sacado aos concelhos de Sintra e Loures, a cidade tornada a 4ª maior do país populacionalmente falando.

Vamos em demanda do amadorense Casal de São Brás. Um dos trajectos possíveis é descer a Calçada de Carriche, virar para Odivelas Sul e logo seguir as sucessivas placas que indicam o centro comercial Dolce Vita. Há que ultrapassar três rotundas, saindo sempre para a direcção sinalizada de São Brás e Casal de São Brás. Aqui chegados, importa encontrar a Rua Oliveira Martins, voltar no sentido da tabuleta Mina/parque Central, subir a pequena Rua Raul Leal e atingida está a Rua Sebastião da Gama (calcula-se que estas e outras mais invocações de escritores e poetas pretendam amenizar a inflação de betão), ao cimo da qual fica o restaurante O Fialho.

Alentejano da Vidigueira, José Manuel Fialho é um sexagenário bem humorado, com longo traquejo profissional em bons sítios de Luanda (a seguir ao serviço militar na Marinha) e de Lisboa antes de em 1987 abrir este seu restaurante, muito bem acompanhado pela esposa Fernanda, a cozinheira, e o filho Carlos (ainda nos "intas") na sala. Esta preparada para receber 32 utentes, num ambiente despretensioso, mas suficientemente confortável, luz natural, paredes repletas de objectos, mesas com revestimento papeleiro (guardanapos de pano só a pedido), copos em condições.

A lista regista 7 Entradas (enchidos, queijos e cogumelos), dos Pratos do Dia não vale a pena falar porque são cooptados da fixa, 4 ou 5 Peixes (além do provado, dois grelhados da praxe, massada e polvo) e 12 Carnes (onde surgem, sem contar o que se comeu, coisas não vulgares como perdiz, coelho bravo, veado e javali). De realçar a secção Por Encomenda, em que se torna possível usufruir, para além do que se comeu, de números como "lebre com feijão e lombardo", "arroz de tordos", "cozido de grão" e outros. Como se está mesmo a ver, é fortíssima por aqui a marca da cozinha alentejana.

Para abrir, bons "torresmos" (€2), de riçol (redenho), "farinheira" (€2) e paio de grande qualidade, ambos oriundos de Sousel, e "cogumelos" (€3), cuja confecção enobreceu uns meros "champignons" carnudos. De sapidez apreciável o "bacalhau à Brás" (€7), mesmo com as batatas algo secas e os ovos mexidos pouco cremosos. O "pernil assado à moda de Arronches" (€8,50/€6) brilhou a grande altura, na companhia de couve branca cozida e salteada no molho leve e de escorreitas batatas fritas. A "carne de alguidar" (€7,50), assessorada por idênticas batatas, deu o máximo de si, com a obrigatória mas não exagerada massa de pimentão. Na segunda jornada, a surpresa do "lombo assado com poejos" (€8,50/€6), assadura catita e o carimbo, inabitual neste caso, da minha erva aromática preferida. Do encomendado, esplêndida a "canja de pombo bravo" (€10, dá para dois), um caldo saborosíssimo com a carne em bocadinhos e o arroz da ordem, hortelã à parte para quem quiser. O "arroz de coelho bravo" (€20, dá para vários) executado com mestria, saborido intercâmbio entre o laparoto e os grãos, ligeira tendência para a malandrice.

Um quinteto de doces, do qual se colheram três exemplares de alto nível: "pudim de mel de Portalegre" (€2,50), "bolo de requeijão" (€3) e "sericaia" (€3,50). A carta de vinhos apresenta boa selecção da região que pretende representar: 48 tintos (40 alentejanos), 8 brancos (todos transtaganos), 2 verdes brancos e 2 espumantes. Serviço a cargo dos dois homens da casa, desempenhado com eficácia e boa disposição.

Ora aí está. Quem me havia de dizer que neste por mim até agora desconhecido Casal de São Brás iria encontrar um restaurante cuja única pretensão é servir, a preços comedidos, alguns pratos da boa cozinha alentejana com as complementaridades devidas, e que atinge vitoriosamente esse desígnio. Claro que é de voltar lá.

 

O Fialho


Rua Sebastião da Gama, n.º 1
Casal de São Brás - Amadora
Tel. 214 942 899
(fecha às terças-feiras)

 

Texto publicado na edição da Única de 9 de janeiro de 2010

publicado por M!ro às 00:11 link do post
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